Ayurveda de Bem-Viver x Cultura do Bem-estar
- Sabrina Alves
- 19 de mar.
- 5 min de leitura
Atualizado: 25 de mar.
NOTAS PECULIARES SOBRE AYURVEDA
POR SABRINA ALVES
A vida é um fluxo constante. Ela só é possível quando substâncias e energias entram e saem do organismo de forma harmoniosa. O Āyurveda, uma das mais antigas ciências da saúde, concentra sua atenção nesse fluxo e nos sistemas de canais que a Natureza criou para equilibrar tudo o que ingerimos e eliminamos em cada nível de energia.
Mas qual a diferença entre o Āyurveda de Bem-Viver e a Cultura do Bem-Estar?
O Āyurveda de Bem-Viver propõe uma reconexão com a natureza e a integralidade do ser, promovendo a autogestão do corpo, da mente e da existência. É uma abordagem que respeita a individualidade, a orientação sexual, a identidade de gênero e as escolhas pessoais, enquanto busca resgatar a harmonia com os ciclos naturais. Já a Cultura do Bem-Estar, fomentada pelo capitalismo, transforma o equilíbrio em um produto a ser consumido, distanciando-nos da nossa essência comunitária e coletiva.
Nesta edição, exploramos como o Āyurveda pode ser uma ferramenta de transformação, ajudando-nos a resgatar o senso de pertencimento e a interdependência com tudo e todos ao nosso redor.
Āyurveda de Bem-Viver: Uma Proposta Coletiva
A interpretação do Āyurveda usando a lente cultural latino-americana dos povos originários de Bem-Viver, não se trata apenas de cuidar de si, mas de reconhecer-se como parte de um todo. Ele nos convida a seguir os ritmos da natureza, observando as passagens do dia, as fases lunares e as estações do ano. Essa prática nos ajuda a entender que o equilíbrio não é um estado estático, mas uma percepção ativa de presença e conexão.
Ao contrário da indústria do bem-estar, que vende a ideia de felicidade constante, o Āyurveda nos ensina a aceitar os ciclos naturais da vida: expansão e contração, alegria e tristeza, vida e morte. Essa visão cíclica nos liberta da pressão de "precisar estar feliz o tempo todo" e nos permite viver com mais autenticidade.
Pilares do Āyurveda de Bem-Viver
Rotinas Diárias e Sazonais
Acompanhar os ritmos naturais, desde o despertar até o sono, passando pelas refeições e práticas de autocuidado.
Respeitar as mudanças das estações e fases da vida, adaptando alimentação, exercícios e rotinas.
Alimentação Consciente (Ahara)
Buscar alimentos regionais, sazonais e livres de ditaduras alimentares.
Resgatar a cultura alimentar e fortalecer vínculos com produtores locais.
Autocuidado e Comunidade
Práticas como raspar a língua, usar óleos naturais e composteiras caseiras.
Participar ativamente de iniciativas comunitárias, como a Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA).
Beleza e Rejuvenescimento
Beleza como fruto da harmonia interna e externa, aliada à paz de espírito.
Gestação, Menopausa e Intimidade
Respeito às escolhas individuais e práticas que fortalecem a saúde física e mental em cada fase da vida.
Cultura do Bem-Estar: um paradigma a ser questionado
A indústria do bem-estar nos vende a ideia de que o equilíbrio pode ser comprado. No entanto, o verdadeiro bem-estar não se encontra em produtos ou serviços, mas na reconexão com a natureza e na construção de relações comunitárias.
Nesse mesmo paradigma está o nutricídio, discutido por Llaila O. Afrika, e o Nutricionismo, criticado por Gyorgy Scrinis, são exemplos de como a alimentação foi transformada em um instrumento de controle e desconexão.
Nutricidio: a colonização e aniquilação da cultura alimentar
O conceito de Nutricídio, de Afrika, revela como a alimentação foi transformada em um instrumento de controle e opressão. Afrika argumenta que a introdução de alimentos processados e industrializados em comunidades tradicionais, especialmente entre populações negras e periféricas, resultou em uma degradação da saúde e da cultura alimentar.
Essa mudança alimentar, imposta por um sistema colonialista e capitalista, substituiu alimentos nutritivos e culturalmente significativos por produtos baratos, pobres em nutrientes e ricos em conservantes. O resultado é uma epidemia de doenças crônicas, como diabetes, obesidade e hipertensão, que afetam desproporcionalmente essas comunidades.
O Nutricídio não é apenas uma questão de saúde individual, mas um ataque à autonomia e à identidade cultural. Ele desconecta as pessoas de suas raízes alimentares e as submete a um sistema que prioriza o lucro em detrimento do bem-estar coletivo.
Nutricionismo: A Redução da Alimentação a Nutrientes
Já o Nutricionismo, criticado por Gyorgy Scrinis, é uma abordagem que reduz os alimentos a seus componentes nutricionais, como proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e minerais. Essa visão simplista ignora a complexidade e a integralidade dos alimentos, além de desconsiderar aspectos culturais, sociais e ambientais da alimentação.
Scrinis argumenta que o Nutricionismo criou uma obsessão por nutrientes específicos, muitas vezes em detrimento da qualidade e da diversidade dos alimentos. Por exemplo, produtos industrializados são enriquecidos com vitaminas e minerais sintéticos, enquanto alimentos naturais e integrais são desvalorizados. Essa abordagem não apenas distorce nossa relação com a comida, mas também reforça a dependência de produtos processados e de marketing enganoso.
O Āyurveda de Bem-Viver como Resposta
O Āyurveda de Bem-Viver propõe uma ruptura com esse paradigma, resgatando a alimentação como um ato de cuidado, conexão e celebração. Ele nos convida a:
Respeitar os Ciclos Naturais: Consumir alimentos sazonais e regionais, alinhados com os ritmos da natureza.
Valorizar a Cultura Alimentar: Resgatar receitas e práticas tradicionais que nutrem não apenas o corpo, mas também a identidade cultural.
Fortalecer Vínculos Comunitários: Apoiar pequenos produtores, participar de hortas comunitárias e compartilhar refeições com familiares e amigos.
Promover a Autonomia Alimentar: Cultivar alimentos em casa, aprender sobre plantas medicinais e reduzir a dependência de produtos industrializados.
O Āyurveda de Bem-Viver propõe uma ruptura com essas práticas, resgatando a sabedoria ancestral e promovendo uma alimentação que nutre o corpo e a alma.
Como Praticar o Āyurveda de Bem-Viver?
Despertar com o Sol: Aproveite o amanhecer para alongar, meditar ou praticar pranayama.
Alimentação Sazonal: Priorize alimentos locais e orgânicos, respeitando os horários das refeições.
Rotinas de Limpeza: Use produtos naturais para cuidar da pele e do ambiente.
Compostagem e Redução de Resíduos: Transforme seus resíduos em adubo e reduza o consumo desnecessário.
Participação Comunitária: Engaje-se em iniciativas locais que promovam a sustentabilidade e a conexão com a natureza.
Conclusão: Um Chamado à Ação Coletiva
A indústria do bem-estar e os sistemas alimentares modernos nos afastaram de nossa essência, mas o caminho de volta está ao nosso alcance. Um dos caminhos pode ser por meio do Āyurveda de Bem-Viver, podemos resgatar a cultura da alimentação descolonizando sua vivencia como um ato de amor, cuidado e conexão.
Não se trata apenas de mudar hábitos individuais, mas de transformar estruturas e sistemas. É uma jornada que começa com a reconexão consigo mesmo, com a natureza e com a comunidade. Juntos, podemos construir um novo paradigma, onde o bem-estar seja um direito de todos, e não um privilégio de poucos.
O Āyurveda de Bem-Viver não é apenas uma prática individual, mas um convite à ação coletiva. Ele nos lembra que "Eu sou porque nós somos", como diz a filosofia Ubuntu. Ao resgatarmos nossa conexão com a natureza e com os outros, podemos construir um mundo mais justo e equilibrado.
Junte-se a nós nessa jornada de reconexão e transformação. Vamos juntos ressignificar o Āyurveda, tornando-o uma ferramenta de empoderamento e bem-viver para todos.
**Este texto é um compilado dos assuntos que abordei na 6a SEMANA DE AYURVEDA do Naradeva Shala. Convido vocês a assistir essa e outras palestras.
Desejo uma ótima caminhada a você.
Obrigada por ter chegado até ao final de mais um "Nota peculiares sobre Ayurveda".
Sejamos arca!
Sabrina Alves
SABRINA ALVES
Dra. e mestre na área de Ciência da Religião pela PUC/SP com enfoque em gênero, religião e decolonização, com formação em Jornalismo. Sua pesquisa mais recente foi em Gênero, Sexualidade e decolonialidade nos Textos Clássicos do Āyurveda em observância da sua prática atual na diáspora Índia-Brasil.
Caso queira conhecer mais e se profissionalizar nesta milenar Arte chamada Ayurveda, recomendo que faça Curso de Formação de Terapeuta Ayurveda, acesse aqui.
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